sexta-feira, 30 de junho de 2017

ESCREVO A SOLIDÃO

Escrevo a solidão.
Emancipo-me de terrena existência,
Depois regresso para esta trágica confluência
Entre o sonhar e o viver.
Há uma aparente reconciliação
Entre mim e o mundo,
Neste retorno inconveniente, improcedente,
Já que vivo dentro do silêncio.
No meu silêncio há beleza e furor,
Na vida há holocausto e terror.
Na calma do meu silêncio há amor,
Na vida há desespero, aflição, horror.
Viver é triste desilusão,
O mundo é ódio e devastação.
A mim foi-me dado o tormento,
O mundo é choro e lamento.
O tormento do meu silêncio é filho da insatisfação,
Mas o mundo é filho da perdição,
Bebe na fonte da vingança e da depravação.
O mundo já não tem salvação.
A solidão é refúgio,
É remanso da inquietação.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

quarta-feira, 28 de junho de 2017

OS MALES DO MUNDO

A lareira começa a ganhar força,
os troncos crepitam entre os murmúrios das labaredas.
O lume encanta e dança
e o calor invade o espaço arrebatadoramente,
com a doçura de um abraço materno.
O conforto da sala contrasta com a dureza da rua.
Pelas ruas ainda se fazem ouvir alguns movimentos perdidos e tardios.
Os passos molhados ecoam pela avenida, sombrios,
arrastando consigo, sem o saberem, esperanças finitamente finitas.
São passos sentidos que carregam as dores e as ciladas do mundo,
o desespero.
Trocam diálogos surdos com as pedras da calçada,
a quem confidenciam a vida e revelam sonhos desvanecidos.
Derramam lágrimas que se confundem com a chuva,
que esta não lava, mas intensifica.

O homem acorre à janela
com desenfreada bonomia,
como se o seu desespero pudesse ser pressentido do lado de fora 
e com ele aliviasse o fardo daqueles que cruzam a rua.
Sabe que não conseguirá ver as pessoas,
mas tem esperança de escrutinar os autores de tão dolorosos passos.
Será homem ou mulher, jovem ou idoso?
Uma criança?
Sofre com eles e por eles, porque conhece a sua dor e as suas tormentas.
Recorda com tristeza o caminhar daqueles que vagueiam sem destino,
sem casa, sem pão, sem o conforto de uma palavra,
cujas vidas há muito se perderam no purgatório
e ecoam eternamente pelo vazio.  
Interroga-se sobre as paragens dessas almas
esquecidas pelo entorpecimento do agir.
Inconformado, agita o lume, com raiva,
Como se, com o seu acto, pudesse reparar os males do mundo.

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terça-feira, 27 de junho de 2017

ESCREVO LOUCURAS

(Elogio da loucura)

Escrevo loucuras
Porque me revejo na insanidade
Escrevo loucuras
Porque abomino absoluta verdade 
Escrevo loucuras
Porque não reconheço discernimento à razão 
Escrevo loucuras
Porque não aceito predição
Escrevo loucuras
Porque nelas existe temeridade
Escrevo loucuras
Porque há na loucura autenticidade
Escrevo loucuras…

TEJO

Cruzo o Tejo,
A locomotiva no seu ritmo frenético,
Cadente, sobre a linha,
Entontece,
Adormece a gente
Que segue indiferente,
Prostrada, anestesiada
Sobre as cadeiras,
Enfeitiçada
Por conversa entediada
E máquinas ilusórias.

Contam-se enfadonhas histórias,
Debita-se conversa fastidiosa
De si mesmo enamorada,
Frenética,
Compulsiva,
Absurda.

Cruzamos a ponte,
O Tejo ao fundo,
Imponente,
Estrela maior entre o céu e o horizonte
E, nem por um segundo,
É convenientemente admirado.
Já ninguém mergulha os olhos na corrente
Nem contempla o espelho d’água,
Já ninguém cavalga a brisa
E desliza
No refluxo das marés.

O Tejo prossegue o seu doce pulsar,
Beijando as margens,
Sedutor,
Pronto para despertar os sentidos,
Para arrepiar a pele,
Para regalar os olhos,
Para extasiar.

Simplesmente contemplar!

Calai-vos ó gente outrora ousada,
É preferível estar calado se o falar é nada!
E contemplai,
Que até na cadência dos carris há melodia
E no silêncio, sabedoria!

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sábado, 24 de junho de 2017

DÁ-ME UM ABRAÇO

Dá-me um abraço
Doce afago
Que me conforta 
Há vida para lá da vida
Nesse abraço que nos enleia

Dá-me um abraço
Que me faça estremecer
E perder
No aperto desse espaço

Dá-me um abraço
Cinge o teu corpo ao meu
Não guardes distância
Avança, fica mais perto

Dá-me um abraço
Forte e sentido
Enternecido

Dá-me um abraço
Em silêncio
Que as palavras às vezes cansam

Dá-me um abraço
No conforto do teu regaço
Consome esta ansiedade que existe em mim

Dá-me um abraço
Não me deixes implorar
Pela urgência do teu sentir
Dá-me um abraço
Que um abraço enlaça as almas
Num cata-vento de emoções

Guarda-me dentro do teu abraço
Onde há autenticidade
Dá-me um abraço
Para a eternidade

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

OS FILHOS DO DESESPERO

Os filhos do desespero
Caminham por mares tumultuosos e terras desconhecidas.
Partem à descoberta de novas vidas
Navegando para além dos sonhos.
Deixam para trás a destruição,
Carregam consigo o fardo pesado das memórias
E a maldição.
Procuram no horizonte longínquo
Um pedaço de paz,
Uma existência feliz.
Acalentam esperanças despedaçadas
Em barreiras de arame farpado
E ilusões enclausuradas em tendas plantadas em lodaçais.

Há vidas humanas que valem menos do que nada,
Há vidas humanas por cumprir,
Derramadas pela indiferença do mundo,
O tormento é existir.
Há vidas humanas registadas no livro do esquecimento,
Talhadas no sofrimento.
Há vidas humanas,
Inumanas.

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

UM LIVRO

Retiro um livro da estante,
Folheio-o ao acaso com desapego.
Aproximo-o do rosto e inspiro as folhas,
Cheiram a poemas e a sonhos.
Volto a colocá-lo no seu lugar,
Parece amuar,
Resgato-o de novo à estante,
Abro-o com confessada indiferença,
Manuseio-o com hesitação,
Corro os olhos pelas páginas,
Ao acaso, com desinteresse.
Navego sobre as linhas e detenho-me sobre uma frase.
A frase aprisiona-me os sentidos,
Perco-me entre as palavras,
Interesso-me.
Recosto-me no cadeirão plantado à janela, 
Lanço-me sobre o horizonte,
Baixo os olhos,
Mantenho-me distante.
Hesito empreender a demanda,
Vacilo na decisão,
Leio mais duas ou três frases,
Rendo-me.
Entrelaço-me nas páginas 
Até a minha alma se fundir com elas.
Sonho o mundo,
Vagueio pela via láctea,
Ceifo vidas de trigo com mãos desajeitadas,
Apanho boleia das trovoadas,
E cruzo os céus em caravelas voadoras.
Sentado nas gotas da chuva galgo serras purificadas,
Sou outra vez criança, jovem esperançado e adulto sonhador,
Flibusteiro, corsário, gaibéu, cavaleiro da lezíria
Sou senhor do universo e escravo das galés.
Desperto,
Continuo sentado no meu velho cadeirão,
Nas mãos mais do que um livro,
Mais do que palavras,
Pura alquimia,
Magia,
Essência.
O horizonte ainda ali estava,
A mesma janela,
O mesmo cadeirão,
O mesmo livro,
Um outro Homem.

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quinta-feira, 22 de junho de 2017

POETANDO

Não faço poemas
Travo batalhas
Uso como armas
Os sentimentos
E as palavras.

Não faço poemas
Desfiro elipses
Rasgo as entranhas da terra
E a celeste esfera
Desafio os ventos
Guerreio os deuses
Esforços sangrentos.

Não faço poemas
Travo batalhas
Desenho ferocidade
Constante insanidade
Consumo-me na insatisfação.

Abraço a noite
Desespero
Não faço poemas
Maldigo as Musas
Avassaladora inquietação.

Não faço poemas
Travo batalhas inesperadas
Vivo a obsessão eterna
De quem tem existência terrena.

Não faço poemas
Desassossego.

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DOCE NOVEMBRO

Novembro arrasta-se triste e chuvoso.
Há muito que as cores verdes deram lugar aos laranjas e aos castanhos.
As folhas começam a abandonar as árvores e a hospedar-se pelas ruas.
O céu está descontrolado e a chuva manifesta-se com vigor e capricho.
De vez em quando um relâmpago enamora-se de um trovão e desfilam de mãos dadas pelo céu.
O tempo pára.
As ruas despem-se de gente.
De longe em longe um chapéu-de-chuva cruza a calçada
tão rapidamente que parece invisível.
Tenta aninhar-se por baixo dos beirados mais generosos.
As ruas iluminam-se mais cedo
e os candeeiros confundem-se com lanternas surdas.
Os vidros colecionam humidade e embaciam-se lentamente.
As pessoas vegetam atrás das vidraças, rogando tréguas a São Pedro.
Adoro os fins de tarde chuvosos
e o nevoeiro,
e de permanecer abraçado a ti,
contemplando,
Demoradamente amando.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

JARDIM DA BEIRA-MAR

Jardim da beira-mar
Sorrio quando olho o rio
Doce navegar
Existe nos meus olhos candura
Relembro tempos inesquecíveis
Trilhos do enamoramento
No dedilhar das notas de uma canção
Sôfrega troca de beijos
Avassaladora paixão

Jardim da beira-mar
Uma eternidade depois
Sorrio quando contemplo o rio
Trago as memórias no olhar
No terno embalar das vagas
Sulco as margens
Relembro cálidas tardes de Verão
Já não te beijo com paixão
Beijo-te com amor e devoção

Ancoraste o teu no meu ser
E persistes eternamente amor

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quarta-feira, 21 de junho de 2017

O MEU JARDIM

O meu jardim 
É um local prazeroso 
Onde ainda é permitido
A vida suavizar
Parar o tempo
E simplesmente, contemplar.

Os velhotes dão milho aos pombos, e expectantes,
Cobiçam as pernas formosas das raparigas, provocantes,
Desinibidas, que por ali costumam passar
Em alegres e juvenis algazarras
A saracotear.

Um ou outro decote mais atrevido
Não passa despercebido
Aos olhares de rapinagem
Experiente malandragem.

Um par de ancas mais abonado
Por um rabo roliço rematado
Reavivam memórias perdidas
Despertam conversas empolgadas,
De eloquente gabarolice
Pervertidas, danadas
Meneios de malandrice.

Esbanjados heroísmos joviais,
Revisitada a meninice glorificada
O fluxo palavroso dá lugar ao silêncio das memórias,
Realidades inglórias.

Iniciam-se os jogos de axadrezados tabuleiros
Com grave solenidade
Pura vaidade 
Os homens, empoleirados nas mesas e nos canteiros,
Sorrateiros,
Lançam olhares de cobiça sobre as damas
Que se entrelaçam em conversas demoradas
E abrilhantam tardes acaloradas.

Desperdiçam-se biscas pelas mesas
Em inconfessáveis desejos vencedores
Corre-se atrás de serpentinas de peças
Que, tal como a vida, oscilam em insondáveis rumores,
Perdedores e lamechas.

Os miúdos, para gáudio pessoal,
Desespero maternal,
Precipitam as bicicletas sobre os canteiros
Esfolando pernas e braços,
Matreiros.

Sob o felino olhar do guarda do jardim
Em total frenesim
Meia dúzia de garotos disputa uma bola de borracha
Vigiada por contemplação paternal embevecida  
Mas distraída, lassa
Por cada bolada a morte precoce de uma Tulipa
E o declínio apressado das pétalas de uma Rosa
Horas de incansável esforço e dedicação
Descartadas com arrebatada profanação.

Um jovem grupo reunido
Não troca uma única palavra entre si
Está absorvido, dominado,
Por infernais visores de luz
Que, sem limites, debitam jogos de truz,
Aos molhos,
Permutando o prazer da conversa de olhos nos olhos.

Num canto imprudente
Movidos por força ardente
Jovens namorados traficam beijos lambidos, descarados,
Rapidamente condenados
Por moralistas escabrosos.

Na esplanada do quiosque central
Leem-se jornais engalanados
E bebem-se cafés longos
Gostosos, repenicados,
Censurados. 

De sacola a tiracolo, o carteiro, bonacheiro, 
Esbanja cumprimentos e alento
Distribui boas novas pelas caixas do correio
Quebrando assim a solidão e o isolamento.

Os camiões atrasados nas entregas matinais,
De piscas em riste, curiais,
Munidos de carrinhos de descarga voluntariosos,
Ocupam espaços pecaminosos
Descarregam até à exaustão balelas mundanas
Banalidades humanas
De que ninguém precisa
Consciencializa
E a vida segue o seu percurso
Imprecisa.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

segunda-feira, 19 de junho de 2017

JULGAMENTO

Vós tivestes pai e mãe
E nascestes em berços bordados a fina seda.
Eu nasci das entranhas da terra,
Esgravatei a pulso o meu nascimento.
Tive como alcofa o cheiro da argila
E por manto as folhas secas do Outono.
Gatinhei na lezíria por entre campos de papoilas e trigo,
Aprendi a ler no cântico das aves e no movimento das estações,
Tive por mestres o balouçar do vento
E as viagens dos equinócios.
Resgatei-me à profundeza das águas dos rios
E bebi água de mil fontes.
Cresci entre as pedras
E tive por companheiros os montes.
Eu fui antes de ser
E morri entes de morrer.
Vós que pensais tudo saber
Apenas me julgais,
Mas para esse direito vos puderdes arrogar,
Tendes de padecer o que eu padeci
E minha cruz carregar.
Bebendo da minha condição
Julgai-me (de)pois então!

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domingo, 18 de junho de 2017

SONHO DE ABRIL

Da opressão andei cativo
Longos e tristes anos amordaçado
Abandonado
Esquecido
Destroçado
A razão valia nada
Contra tirania pesada.
Ditadura,
Tortura.

Um dia sonhei
Nas asas de uma leda madrugada primaveril
Caminhei ao lado da esperança
E pelas mãos de uma criança
Ergui um cravo florido de Abril.
Curta bonança,
Puro Ardil.

Liberdade encapotada
Num conto de Abril
Disfarçada
Tenebrosa
Febril

Madrugada de Abril
Expectativa destroçada
Senil.

Abril se enamorou
Pelo capital se deslumbrou
Rendeu-se à economia
Liberdade, ideia fugidia.

Liberdade da palavra, do pensamento
Ideais, leva-os o vento
Que importa o sofrimento?
O tormento?
O mundo avança
Desenvolvimento!…

Novas teorias nos foram dadas
Novas realidades declaradas
Endeusadas novas personagens
Deixaram-nos as miragens.

Temos da lembrança a madrugada
Temos a fantasia de Abril
Na verdade não temos nada
Só a utopia
Ideia vazia.

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quinta-feira, 15 de junho de 2017

CRÍTICO

Acusais-me de ser crítico,
Incisivo, mordaz,
Como não criticar a perfídia,
A ignomínia, a insídia,
A intolerância, o vilão, o incapaz?

Dizeis-me que sou exigente,
Que releve,
Que seja tolerante, complacente.
Como poderei sê-lo
Se viveis com tão pouco zelo.

Tendes o teatro, o cinema, a literatura,
Mas contentai-vos com palavras de mesura,
Tendes a utopia, o sonho,
Mas bastai-vos com o efémero.
Tendes a filosofia, a razão,
Contentai-vos com palavras de ilusão.
Tendes a poesia,
Mas bastai-vos com a heresia.
Tendes a melodia dos pássaros,
Mas preferis o burburinho das cidades.
Tendes a beleza da música e o canto das baleias,
Mas escolheis o rumorejar das alcateias.
Tendes a excelência da pintura,
Mas iludi-vos com traços de agrura.
Tendes a magnificência do sol e das estrelas,
Mas invejais luzes artificiais.

Sois vós que viveis em feiras e arraiais.
Que me criticais?
Criticais o homem ou as suas acções?
Que autoridade tendes vós
Que carregais no semblante invejas e maldições!?

Sim, tendes razão!
Sou crítico, irreverente, exigente,
Penso pela minha cabeça,
Não aceito qualquer sentença,
Eu guio-me pelo desassossego da curiosidade,
Pelo descontentamento da insatisfação.
Carrego a inquietação da humanidade,
Sou filho da imperfeição,
E tenho em mim o desejo da superação!

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sábado, 10 de junho de 2017

PORTUGAL

Povo especial
Nobre raça
Sequência genética única
Singular
Bebeu na fonte milenar
Nação dos contrastes e da diferença
Celtas, Celtiberos, Lusitanos
Fenícios, Gregos, Cartagineses
Romanos
Suevos, Visigodos
Muçulmanos
Alma Lusa
Roda-viva
Perseverança
Filhos da esperança
Concebidos em alto-mar
Desafio Adamastor
Cabo Bojador
Reis da Taprobana
Povo construtor
Oleiros da harmonia
Povo sonhador
Epifania
Caravelas caminhantes
Horizontes sextantes
Velas de Cristo
Fé, saudade, amor, paixão
Mensageiros da paz
Povo conquistador
Audaz
De Vera Cruz fundador
Edificador
Mito de África
Ocidente
Oriente
Ninfas
Douro
Porto
Doce néctar
Rabelo navegante
Tejo, luz, sedução
Ambição
Povo de Poetas
Camões
Pascoaes
Torga
Pessoa
Florbela
Sophia
Garrett
Bocage
Quental
Determinação
Fado
Da humanidade
Património mundial
Pátria original
Povo invulgar
Universal
Portugal!

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