quarta-feira, 21 de junho de 2017

O MEU JARDIM

O meu jardim 
É um local prazeroso 
Onde ainda é permitido
A vida suavizar
Parar o tempo
E simplesmente, contemplar.

Os velhotes dão milho aos pombos, e expectantes,
Cobiçam as pernas formosas das raparigas, provocantes,
Desinibidas, que por ali costumam passar
Em alegres e juvenis algazarras
A saracotear.

Um ou outro decote mais atrevido
Não passa despercebido
Aos olhares de rapinagem
Experiente malandragem.

Um par de ancas mais abonado
Por um rabo roliço rematado
Reavivam memórias perdidas
Despertam conversas empolgadas,
De eloquente gabarolice
Pervertidas, danadas
Meneios de malandrice.

Esbanjados heroísmos joviais,
Revisitada a meninice glorificada
O fluxo palavroso dá lugar ao silêncio das memórias,
Realidades inglórias.

Iniciam-se os jogos de axadrezados tabuleiros
Com grave solenidade
Pura vaidade 
Os homens, empoleirados nas mesas e nos canteiros,
Sorrateiros,
Lançam olhares de cobiça sobre as damas
Que se entrelaçam em conversas demoradas
E abrilhantam tardes acaloradas.

Desperdiçam-se biscas pelas mesas
Em inconfessáveis desejos vencedores
Corre-se atrás de serpentinas de peças
Que, tal como a vida, oscilam em insondáveis rumores,
Perdedores e lamechas.

Os miúdos, para gáudio pessoal,
Desespero maternal,
Precipitam as bicicletas sobre os canteiros
Esfolando pernas e braços,
Matreiros.

Sob o felino olhar do guarda do jardim
Em total frenesim
Meia dúzia de garotos disputa uma bola de borracha
Vigiada por contemplação paternal embevecida  
Mas distraída, lassa
Por cada bolada a morte precoce de uma Tulipa
E o declínio apressado das pétalas de uma Rosa
Horas de incansável esforço e dedicação
Descartadas com arrebatada profanação.

Um jovem grupo reunido
Não troca uma única palavra entre si
Está absorvido, dominado,
Por infernais visores de luz
Que, sem limites, debitam jogos de truz,
Aos molhos,
Permutando o prazer da conversa de olhos nos olhos.

Num canto imprudente
Movidos por força ardente
Jovens namorados traficam beijos lambidos, descarados,
Rapidamente condenados
Por moralistas escabrosos.

Na esplanada do quiosque central
Leem-se jornais engalanados
E bebem-se cafés longos
Gostosos, repenicados,
Censurados. 

De sacola a tiracolo, o carteiro, bonacheiro, 
Esbanja cumprimentos e alento
Distribui boas novas pelas caixas do correio
Quebrando assim a solidão e o isolamento.

Os camiões atrasados nas entregas matinais,
De piscas em riste, curiais,
Munidos de carrinhos de descarga voluntariosos,
Ocupam espaços pecaminosos
Descarregam até à exaustão balelas mundanas
Banalidades humanas
De que ninguém precisa
Consciencializa
E a vida segue o seu percurso
Imprecisa.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

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