quarta-feira, 28 de junho de 2017

OS MALES DO MUNDO

A lareira começa a ganhar força,
os troncos crepitam entre os murmúrios das labaredas.
O lume encanta e dança
e o calor invade o espaço arrebatadoramente,
com a doçura de um abraço materno.
O conforto da sala contrasta com a dureza da rua.
Pelas ruas ainda se fazem ouvir alguns movimentos perdidos e tardios.
Os passos molhados ecoam pela avenida, sombrios,
arrastando consigo, sem o saberem, esperanças finitamente finitas.
São passos sentidos que carregam as dores e as ciladas do mundo,
o desespero.
Trocam diálogos surdos com as pedras da calçada,
a quem confidenciam a vida e revelam sonhos desvanecidos.
Derramam lágrimas que se confundem com a chuva,
que esta não lava, mas intensifica.

O homem acorre à janela
com desenfreada bonomia,
como se o seu desespero pudesse ser pressentido do lado de fora 
e com ele aliviasse o fardo daqueles que cruzam a rua.
Sabe que não conseguirá ver as pessoas,
mas tem esperança de escrutinar os autores de tão dolorosos passos.
Será homem ou mulher, jovem ou idoso?
Uma criança?
Sofre com eles e por eles, porque conhece a sua dor e as suas tormentas.
Recorda com tristeza o caminhar daqueles que vagueiam sem destino,
sem casa, sem pão, sem o conforto de uma palavra,
cujas vidas há muito se perderam no purgatório
e ecoam eternamente pelo vazio.  
Interroga-se sobre as paragens dessas almas
esquecidas pelo entorpecimento do agir.
Inconformado, agita o lume, com raiva,
Como se, com o seu acto, pudesse reparar os males do mundo.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

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