sexta-feira, 23 de junho de 2017

UM LIVRO

Retiro um livro da estante,
Folheio-o ao acaso com desapego.
Aproximo-o do rosto e inspiro as folhas,
Cheiram a poemas e a sonhos.
Volto a colocá-lo no seu lugar,
Parece amuar,
Resgato-o de novo à estante,
Abro-o com confessada indiferença,
Manuseio-o com hesitação,
Corro os olhos pelas páginas,
Ao acaso, com desinteresse.
Navego sobre as linhas e detenho-me sobre uma frase.
A frase aprisiona-me os sentidos,
Perco-me entre as palavras,
Interesso-me.
Recosto-me no cadeirão plantado à janela, 
Lanço-me sobre o horizonte,
Baixo os olhos,
Mantenho-me distante.
Hesito empreender a demanda,
Vacilo na decisão,
Leio mais duas ou três frases,
Rendo-me.
Entrelaço-me nas páginas 
Até a minha alma se fundir com elas.
Sonho o mundo,
Vagueio pela via láctea,
Ceifo vidas de trigo com mãos desajeitadas,
Apanho boleia das trovoadas,
E cruzo os céus em caravelas voadoras.
Sentado nas gotas da chuva galgo serras purificadas,
Sou outra vez criança, jovem esperançado e adulto sonhador,
Flibusteiro, corsário, gaibéu, cavaleiro da lezíria
Sou senhor do universo e escravo das galés.
Desperto,
Continuo sentado no meu velho cadeirão,
Nas mãos mais do que um livro,
Mais do que palavras,
Pura alquimia,
Magia,
Essência.
O horizonte ainda ali estava,
A mesma janela,
O mesmo cadeirão,
O mesmo livro,
Um outro Homem.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

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