quarta-feira, 5 de julho de 2017

ETERNAMENTE JOVEM

Aqueles que me olham, apenas veem em mim um velho.
Cruzam-me com o olhar sem me verem. Imaginam…
Lêem no invólucro,
Um velho tonto, decrépito, lento, espetado pelos ossos, deformado,
Com mapas desenhados na cara e olhos cavados em forma de sepultura.
Um velho qualquer, sem importância, que cruza as ruas sem memória,
Percorrendo rumos inusitados sem trilho.
Um velho a quem soletram palavras gritadas como se fora novamente criança,
Como se esta minha velhice, que garantem que nunca será vossa,
Não tivesse passado nem história, como alguém que tivesse nascido
Sem pai, sem mãe, de um rascunho divino, desvanecido.
Quando eu era jovem também transpunha valados e voava pelos terraços,
Não existiam limites nem constrangimentos.
Quando eu era jovem tinha a ilusão gravada nos olhos
E dormia regaladamente sobre o manto do infinito.
Quando eu era jovem navegava de mãos dadas com a cidade eterna,
Desconhecia a restrição, todo eu era intrepidez e ligeireza,
Vogava o comportamento com destreza
E caminhava a vida com ingénua leviandade.
Quando eu era jovem também não concebia que envelhecia,
Que haveria de definhar e tornar-me a sombra do que já fora.
Uma imagem esmaecida da realidade,
Um molde gasto de um projecto sem futuro.
Quando eu era jovem também sonhava com a eternidade.
Não, não é a idade…
Separam-nos segundos, de tal forma que mal percebeis essa existência.
O que nos separa, por finíssima diferença, é essa partícula de tempo,
Que dá pelo nome de experiência
Os sonhos?...
Esses… são os mesmos!...
Por isso, não me atravesses com o olhar sem me veres!..

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

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