quarta-feira, 26 de julho de 2017

(RE)NASCIMENTO

Caminhando pela rua como quem desfere órbitas pelo universo
Sinto um aperto no peito, repentino, uma convulsão fulgurante
Como quem nasce novamente e sente a dor do seu próprio parto
O pulsar do sangue por baixo da pele
O sopro da vida a nascer dentro de si mesmo.
Permaneci inerte numa doce ausência,
Trocando palavras surdas com o espírito da tarde
Sobre a natureza das coisas e a sua essência.
Regressei envolto numa nova placenta
Em transformação estimulante, mas lenta
Resgatada à dúvida e à descrença
Logo seguida da voragem da diferença.
Perdi parte da percepção pelo órgão da vista.
Recebi em troca uma chama ardente, sedenta
Que não consome, alimenta.
Não é que tivesse perdido o esplendor da visão
Mas deixei de ver a magia da coloração.
Acredito na inteligência da natureza, não devo ser excepção,
Mas agora sou outra coisa, pertenço a outra dimensão. 
Sem o privilégio da visão colorida
Percebo que já não vejo o perto
As coisas pequenas, insignificantes, são-me inexistentes
Em contrapartida ganhei a distância. Alcanço o longe
Nada do que é grandioso me passa despercebido
Deixar de ver as cores da vida não é deformidade,
É primazia.
Passei a ver as coisas como elas são e não como elas querem que eu as veja,
Sem a máscara da aparência e da ilusão
Sou cego para o que aparenta ser, só vejo aquilo que é.
Avanço mais dois passos na estranheza deste novo caminhar
E apercebo-me que também perdera a audição.
Pressenti o mar da surdez, mas depois, em esforçada confluência,
Percebi em mim uma nova transformação
A surdez não me dominara, apenas deixara de ouvir o ruído, o burburinho,
O ciciar das víboras e o ulular diabólico das hienas.
Agora só ouço melodias e cânticos:
O silêncio das urzes, o despertar das manhãs, o cantarolar do vento
A canção do futuro, o som dos planetas, o balouçar dos oceanos.
Mais tarde, ao percorrer este novo caminho, senti uma calma profunda,
Uma inexplicável tranquilidade
E apercebi-me que perdera, partes de mim:
O ódio, o ciúme, o azedume.
Apartei-me dos bandos e das algazarras da devassidão  
Agora só transporto o amor, o belo,
E a admiração pelas coisas simples da vida.
Quando se enxerga tudo com o mesmo tom,
E tudo se afina pelo mesmo diapasão
A cor da pele dos homens deixa de ser importante.
Quando já não se ouvem os desafios dos ímpios
Só a voz suave dos céus nos desperta os sentidos e capta a atenção.
Quando carregamos no peito a paixão só nos interessa o “Ser”.
Já não vejo a coloração dos Homens, perscruto-lhes o coração.
Só isso importa, só isso me detém…

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

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