sábado, 29 de julho de 2017

SOMOS TODOS SANGUE

A casa, uma ilha isolada no meio da desolação
Impunha-se na linha da fronteira como um farol.
Eles tinham de a transpor naquelas viagens intermináveis
Que os conduziam a um mundo que não conheciam,
Mas onde depositavam expectativas inabaláveis.
Não conseguia vê-los, mas ouvia-os, sabia que eles existiam
Assim como sabemos da existência do vento quando roça a matéria.
Eles deviam ver-me debaixo da luz trémula do alpendre
Carregando a curiosidade.
Costumava deixar-lhes garrafas de água
Que desapareciam na manhã seguinte
E, por isso, sabia que aqueles olhos misteriosos
Não eram fantasias de criança,
Eram olhos suplicantes de esperança.
Olhos sem rosto que navegavam pela escuridão,
Massacrados pelo desespero e pela solidão.
Marchavam em silenciosa agonia,  
Em cadência ritmada, fixados no horizonte,
Com rostos impassíveis e sede pelo destino.
Nunca falavam, mal respiravam,
Nunca olhavam para trás,
Seguiam o seu caminho como um cometa,
Com um objectivo traçado.
Às vezes, o luar batia-lhes no rosto e os olhos brilhavam
Como dois fachos ardentes queimando a noite.
Um dia, decidi ir ao encontro do mistério dos olhos
Escondi-me atrás de um arbusto, quando os ouvi aproximar
Apontei-lhes a lanterna com convicção, e medo, e tremuras nos lábios.
Foi então que percebi que por detrás daqueles olhos existiam pessoas
Pessoas como eu, pessoas de todas as cores,
Novos, velhos, homens, crianças, mulheres.
O homem que me atropelou assustou-se, começou a gritar
E eu gritei também, ainda mais alto do que ele,
Depois, comecei a chorar, sem ruído,
Ficaram em sobressalto.
Um homem, já velho, que parecia ser o líder do grupo
Proferiu algumas palavras com voz grave mas audível: - rapaz água.
Sossegaram, mas eu continuei a chorar 
Os olhos que salpicavam a noite sorriram de gratidão,
Mas os rostos mantiveram-se imperturbáveis
O homem tentou tranquilizar-me, mas como isso não resultava
Chamou os seus companheiros, um a um
Esculpiu-lhes pequenos golpes nos braços
O sangue começou a escorrer
Era um grupo de mais de 30 pessoas: brancos, pretos, vermelhos, mestiços, amarelos
Então o homem aproximou-se de mim
E desenhou-me um pequeno traço vermelho no braço
Uma força inexplicável paralisou-me, calei-me
O meu braço chorou por mim pequenas gotas de sangue,
Todos nós vertíamos lágrimas de sangue pelos braços
O homem passou-me a mão pela cabeça
E projectou algumas palavras com uma pronúncia estranha,
De mansinho, pausadamente: - Somos todos sangue!..
As palavras ecoaram pela noite até se perderem no vazio.
Naquela altura não percebi muito bem o que ele quis dizer com aquilo
Depois, um a um, secaram-me as lágrimas com beijos
E seguiram o seu caminho penoso.
Nunca mais esquecerei aquelas palavras:
«Somos todos sangue».

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

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