sábado, 2 de setembro de 2017

FILHO

Não senti o êxtase de te carregar no ventre
Porque sou homem
Mas não te amo menos por isso
Porque um pai transporta o filho na alma
Andei contigo ao colo vezes sem conta
Até adormeceres nos meus olhos
Abracei-te junto ao peito
Para sentir a tua pele
E inebriar-me com o teu cheiro de anjo.
Quando ainda não sabias falar
Conversávamos com o coração
E com o sorriso do olhar
Entendíamo-nos por gestos
E com os sons do pensamento.
Ajudei-te a dar os primeiros passos
E ensinei-te a andar de bicicleta
Às vezes, em movimentos pouco ajuizados
Rebolávamo-nos pelo chão
Em brincadeiras patetas
E ríamo-nos sem parar.
Dei-te a ouvir a minha música
A ler os meus livros
E a ver os meus filmes
Alimentei os teus sonhos com os meus sonhos
E fiz-te navegar pelas minhas convicções
Mas sempre soube que não eras meu
Apesar dessas doces ilusões.
Foste um projecto divino
Um teste de Deus
À minha capacidade de amar
À minha capacidade de abnegação
Ao meu egoísmo.
Já não sou um pai herói
E um dia serei apenas uma memória numa moldura
Sonhas o mundo pelas tuas ideias
E caminhas com os teus próprios passos.
Talvez nunca te deixe uma grande fortuna
Mas acredito que a forma como conduzo a minha vida,
Tenha impacto na tua
E que a herança que te deixo
Esteja inscrita no tempo que passámos juntos
Nas minhas derrotas
Nos meus sucessos
Na integridade das minhas acções
Na forma como tratei aqueles com quem me cruzei
Nas causas que defendi
E na educação que te dei.
Sei que nunca foste meu
E que pensas pela tua cabeça
Mas alimento a esperança
De te ter mostrado o caminho.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

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